REVOLUÇÃO DA CULTURA DIGITAL
Os religiosos mais conservadores podem ficar meio desesperados mas muita coisa está mudando por conta do digital, inclusive nas igrejas. Na Inglaterra, a tradicional Catedral de Saint Paul, contratou nada mais nada menos do que um dos pais da chamada vídeo arte, Bill Viola, para produzir uma série de vídeos com o tema Maria e os Mártires. Esses vídeos serão apresentados em enormes tvs de plasma em duas proeminentes posições ao lado do famoso altar principal, para ser visto desde a entrada de cada uma das alas. Seguramente, esse deve ser um investimento altissimo, mas a apropriação dessas tecnologias, com o barateamento dos equipamentos digitais, tem possibilitado um outro movimento muito mais importante. E isso não é de hoje. Quando em 2003 a espaçonave Columbia explodiu ao retornar do espaço, a NASA pode melhor analisar o fato, por conta dos mais de 12 mil vídeos e imagens coletados de amadores. O Observatório Nacional Virtual, financiado pelo governo americano, coleta e publica, de forma aberta, imagens de astrônomos amadores de todo o mundo, de forma a se constituir em um enorme painel do universo, possibilitando pesquisadores, professores e amadores adentrarem no universo dos astros diretamente de seus computadores pessoais. A arte digital, a pesquisa em rede, a publicação online de textos e resultados de pesquisas acadêmicas, a apropriação da rede por produtores de músicas e vídeos, são exemplos de um movimento mundial em torno da liberdade de circulação dos conhecimentos produzidos pela humanidade. No campo científico, tem crescido, felizmente de forma vertiginosa, a publicação de revistas acadêmicas no modelo de publicação aberta, com acesso livre para todos, diferente do sistema atual, através do qual editoras cobram fortunas para que o autor possa publicar seus resultados (na maioria das vezes financiados com dinheiro público!) e cobram também outra fortuna para que o leitor possa ter acesso aos artigos. Na Bahia, ainda andamos muito devagar, mas estamos caminhando. A título de exemplo, na UFBA temos nove revistas com a política de acesso aberto e mais sete estão em implantação. Tenho insistido, lamentavelmente sem muito sucesso, que o governo do Estado promova uma ação mais enérgica e estratégica nessa área. Só falando em termos de campi de universidades públicas, temos ao redor de 30 espalhados pelo interior da Bahia e capital. Imaginem se articulássemos todas as suas bibliotecas, junto com as municipais e estaduais, integrando acervos, sistemas de empréstimos e trocas, revistas on-line, sistemas informatizados compatíveis uns com os outros, tudo livre e acessível para todo cidadão em seu próprio município? Não tenho dúvida, seria uma verdadeira revolução em nosso Estado. Uma revolução através da cultura digital, que já tem na política de Pontos de Cultura um forte aliado. Neles, esta se formando uma geração que será capaz de atuar de forma livre na busca de soluções criativas (e espero que também livres!) para os grandes desafios que temos pela frente. Essa turma, em torno dessa bem sucedida política pública do MinC, promove a chamada inclusão digital, produz vídeos, sons, rádios web, parafernálias eletrônicas e digitais que ampliam a cidadania. Promovem a produção de música, como a Eletrocoperativa e o Pragnotecno, que já articula-se com todo o Norte e Nordeste brasileiro. Movimentos como esses estão acontecendo em todos os cantos do planeta. Um outro exemplo de apropriação da cultura digital vem mexendo com o cotidiano dos índios bolivianos. Lá, com apoio do governo do presidente-índio Evo Moralles, eles estão ocupando a televisão, transformando a música, resgatando suas culturas e, aí o importante, re-mixando tudo. Na televisão pública, as comunidades indígenas estão tendo mais espaço e, desse modo, resgatam a sua língua. Na música, dialogam com outros tipos e se apropriam das redes sociais. No Facebook (equivalente ao Orkut), Abraham Bojórquezo, líder do grupo hip-hop Ukamau y Ke, divulga o seu trabalho, estabelecendo novas conexões. Em recente matéria de página inteira no jornal inglês The Guardian, ele afirmou que o "hip-hop é um gênero revolucionário, então, porque não adaptá-lo para dizermos o que queremos? Os povos arborigenas sobreviveram a anos de opressão e tortura. Estamos recuperando nossa identidade com o hip-hop. E o povo nos ouve!". Será que, escrevendo aqui em A Tarde, alguém nos ouvirá? Quem sabe?
por Nelson Pretto - professor da Faculdade de Educação da UFBA e visitante da Universidade Trent de Nottingham - www.pretto.info
Enviado do para o jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, em 06.07.2009.
Escrito por jbsouto às 18h47
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REVOLUÇÃO E SENTIDOS DA TECNOLOGIA
Nada encarna melhor o espírito da revolução do que as proezas da tecnologia. Na modernidade, a ciência e a técnica substituem a religião e Deus na construção do novo. A tecnologia aponta para o u-topos e o u-cronos alimentando sonhos. Com a revolução da informática, voltamos ao velho sonho de um mundo da comunicação livre, sem entraves, democrático, global. As redes sempre produzem este imaginário. Ecumênicas, elas fomentam a panacéia do estar-junto. Foi assim com o telégrafo e a estrada de ferro, com o rádio, o telefone e as autoestradas; com a TV, os aviões e a viagem à lua. É assim hoje com a internet.
A (revolução da) cibercultura implica novos sentidos da tecnologia. O paradigma informacional instaura a passagem do modo industrial para o eletrônico. O Gestell (Heidegger) é a essência da técnica moderna: dominação científica da natureza, onde esta torna-se fundo para a intervenção tecnocientífica. O novo paradigma traduz o mundo em dados binários, para posterior processamento em máquinas informacionais, os computadores. A dominação agora é digital. O sentido (histórico) é construído pela tradução da natureza na linguagem dos algoritmos, inserindo o domínio técnico na esfera do discurso e da comunicação. A revolução algorítmica transforma a sociedade industrial a parir de três pilares fundamentais: a rede (informação), a sociabilidade (comunicação) e a globalização (mundialização). Esse tripé desenha a relação política da revolução técnica atual. Esta aponta para a expansão da informatização do mundo, onde potência comunicativa e processamento de dados aumentarão.
Mas,para além do domínio técnico, e através dele, haveria uma revolução social em marcha. Hoje nada se compara à força transformadora da informatização da sociedade nos seus três princípios: a liberação da palavra (emissão), a conexão planetária e a reconfiguração sociocultural. A liberação da palavra traz conseqüências para a constituição da opinião e da esfera públicas. Podemos afirmar que a conversação mundial se ampliou com sistemas de comunicação transversais como blogs, microblogs, wikis e outras redes sociais. A liberação da emissão (antes controlada pelos mass media) é correlata à abertura dos sentidos. A transformação da esfera midiática se dá com o surgimento de funções conversacionais pós-massivas, permitindo, a qualquer pessoa, consumir, produzir e distribuir informação sem ter que movimentar grandes volumes financeiros ou pedir concessão a quem quer que seja (vejam o impacto do Twitter na atual tensão pós-eleições no Irã). A livre circulação da palavra se dá pela conexão mundial em redes (internet e celulares). A constituição dessa esfera pública mundial tem implicações políticas profundas. Aparece aqui o que sentimos no dia a dia: reconfiguração social, cultural e política do sistema infocomunicacional global, com novas mediações e agentes criando "revoluções" no centro da polis.
A relação entre a comunicação (a potência social) e a técnica (a potência da ação) está na base da discussão política, desde sempre. A técnica - a esfera da ação sobre o mundo, e a comunicação - o discurso como forma de virtualização dos sentidos, são dimensões essenciais do humano. Estas balizam as relações sociais, dimensionando a sua coesão e futuro. Para pensarmos a revolução da cibercultura é necessário partir do reconhecimento dos rumos da democracia (cada vez mais planetária) em uma sociedade construída, de agora em diante, sobre um outro modelo comunicacional: às funções massivas informacionais adicionam-se funções pós-massivas conversacionais. O impacto da nova convergência comunicação-tecnologia é gigantesco: liberação da emissão, crise das mediações, conexão bidirecional global, software e cultura "livre", redes sociais, mobilização e mobilidade.
Mas resta perguntar para onde essa revolução nos levará. Voltemos ao começo. O sentido aqui é outro; o de sua essência. A técnica moderna é ainda dominação científica da natureza e do outro. Mas, diferente das tecnologias do modelo industrial/massivo, que tinha por modo de ser a extração material e energética da natureza para produção de bens e difusão de informações centralizadas, parece que a essência da tecnologia digital é a tradução da natureza em bits para produção de formatos comunicativos e conversacionais globais. É o seu modo de ser, o seu princípio. Por esse prisma, o sentido da revolução técnica está aberto, sendo produzido neste exato momento no jogo das subjetividades em rede. Não é a primeira vez, certamente, mas podemos agora produzir sentido coletivamente, cooperativamente, no jogo das subjetividades abertas ao outro, para além das querelas identitárias, das fronteiras, das culturas, das religiões e dos territórios. Mas há aqui ainda uma utopia. Se houver uma revolução tecnológica, ela se dará na produção aberta e coletiva dos sentidos.
Referência
Heidegger, M., Essais et Conférences. Paris, Gallimard, 1958.
André Lemos é professor Associado da Faculdade de Comunicação da UFBa, pesquisador 1 do CNPq. Esse artigo foi escrito para o jornal A Tarde, especial sobre "Revoluções". A ser publicado em breve.
Escrito por jbsouto às 18h38
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MUNDANÇA NA EDUCAÇÃO
Uma imagem vale mais que mil palavras! 
Escrito por jbsouto às 18h30
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