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ESQUEÇAM O QUE ESCREVI

“Eu deveria ter escrito na primeira versão do Consenso de Washington que, justamente com a desregulamentação do sistema financeiro, é preciso ter maior supervisão”
John Williamson, economista, autor do Consenso de Washington


Escrito por jbsouto às 09h39
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Crise financeira é sempre o momento Minsky

Artigo de Marcos Antonio Cintra, no caderno Mais, da Folha de S. Paulo de hoje, reforça o que foi dito aqui nos posts dos dias 19 e 29 de setembro, inclusive, no que diz respeito às editoras de livros no Brasil:

Crise ressuscita Minsky
Obra de professor morto em 1996 sobre instabilidade financeira é reeditada nos EUA

MARCOS ANTONIO CINTRA
DA EQUIPE DE EDITORIALISTAS

A CRISE financeira internacional aumentou o interesse pela obra do professor Hyman P. Minsky (1919-1996). Seus dois principais livros, publicados inicialmente por editoras universitárias, foram reeditados pela McGraw-Hill, possibilitando o acesso a uma nova geração de economistas, analistas e investidores.

Vários analistas têm invocado suas idéias para tentar compreender a natureza da crise iniciada no mercado americano de hipotecas de alto risco. O colunista do "Financial Times", Martin Wolf, por exemplo, afirmou: "Eu reli a obra-prima de Minsky, "Stabilizing an Unstable Economy" [Estabilizando uma economia instável]. (...) Minsky estava certo. Um longo período de rápido crescimento, baixa inflação, taxas de juros baixas e estabilidade macroeconômica estimulou a complacência e uma maior disposição de assumir risco. A estabilidade levou à instabilidade".

Graduado em matemática pela Universidade de Chicago em 1941, Minsky realizou seu doutoramento em economia na Universidade Harvard, em 1954, onde conviveu com Alvin Hansen, um dos principais discípulos de John Maynard Keynes nos EUA, com Joseph Schumpeter e com Wassily Leontief.

A partir de releitura da "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda", de Keynes, desenvolveu a "hipótese da instabilidade financeira". Para isso, analisou as decisões de investimento dos empresários movidas pelas expectativas de ganhos futuros. A concretização dessas decisões, porém, requer a disponibilidade de recursos financeiros. As fontes de financiamento podem ser internas (lucros retidos) ou externas (crédito bancário, ações etc.).

Os recursos externos permitem a expansão dos investimentos além da capacidade das fontes internas, na expectativa de obtenção de receitas superiores aos custos dos financiamentos. Trata-se, no entanto, de uma aposta de alto risco. As receitas esperadas são incertas, mas as dívidas possuem desembolsos predefinidos.
A expansão dos lucros sanciona as projeções passadas e realimenta as expectativas futuras. Isso contribui para a redução das margens de segurança dos empresários, que ampliam os investimentos, com maior endividamento.

Tangidos pela busca do lucro em um ambiente de expectativas otimistas, os bancos reduzem seus critérios de alocação do crédito e elevam a alavancagem (uso de capital de terceiros para ampliar suas operações). A introdução de inovações financeiras e a sua rápida difusão e imitação por outras instituições facilitam esse movimento expansivo do crédito e da liquidez, em geral, por meio de brechas nas restrições impostas pelas autoridades monetárias.

Com a expansão do endividamento, no entanto, as corporações ficam vulneráveis às alterações nos fluxos de lucros, nas taxas de juros e de câmbio etc. Quando as expectativas revertem, as estruturas financeiras construídas durante a euforia revelam-se insustentáveis. Os bancos procuram reestruturar seus portfólios, buscando ativos mais líquidos (títulos da dívida pública). Essa estratégia defensiva pode desencadear uma abrupta contração do crédito e, por conseguinte, falência em diversos segmentos.
Para Minsky, portanto, os períodos de instabilidade financeira resultam do aumento da fragilidade das estruturas de ativos e passivos dos agentes econômicos, engendrado durante a fase de prosperidade. O boom econômico, a "exuberância irracional", o endividamento excessivo, a busca pela liquidez, o pânico são fenômenos endógenos à própria dinâmica de uma economia monetária.

A fim de conter essa instabilidade intrínseca, faz-se necessária a adoção de regras para os mercados financeiros, tais como limites à alavancagem dos bancos, à interpenetração patrimonial entre os agentes financeiros e não-financeiros, à exposição a determinados setores e investidores etc. Caso contrário, os movimentos de euforia e de pessimismo tendem a ser exacerbados.

Essa dinâmica, descrita em seus livros, tem aparecido de forma recorrente no comportamento dos agentes econômicos e reproduzido nas reportagens dos jornais. Durante o período de crescimento (2002-2006), as famílias e os bancos americanos assumiram cada vez mais dívidas e mais complexas (inovações financeiras).

A incapacidade de honrar os compromissos e a desvalorização dos imóveis e dos ativos lastreados nas hipotecas desencadearam o chamado "Minsky moment", em agosto de 2007. Os investidores começaram a vender as hipotecas e seus preços desabaram, introduzindo uma ampla demanda por moeda. Os bancos centrais foram obrigados a injetar montanhas de recursos para tentar preservar a liquidez dos mercados.

Infelizmente, não há nenhuma de suas obras editada no país, exceto um artigo publicado na revista "Economia e Sociedade", do Instituto de Economia da Unicamp ("Integração financeira e política monetária", 1994). As editoras brasileiras também poderiam aproveitar esse "momento Minsky" e publicar seus principais livros, facilitando o acesso de milhares de estudantes de graduação e pós-graduação em economia, administração e finanças.


Escrito por jbsouto às 09h36
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O \\\"moinho satânico\\\" está em pleno movimento

É curioso como uma bibliografia, que durante as últimas décadas ficou esquecida e desacreditada – ou melhor, falando sozinha – agora ressurge como novidade para alguns ou com a confiança renovada pela crise econômica. Embora os economista ortodoxos, no sentido daqueles sempre favoráveis ao livre mercado, escrevam linhas e linhas de artigo ainda defendendo o liberalismo desenfreado e insistindo que a crise é apenas resultado de uma falha do Estado (leia-se Fed, o banco central norte-americano) e não da incapacidade crônica do mercado.

Durante os anos gloriosos do livre mercado, dizer por aí que se era economista político era quase como estudar datilografia, agora muitos descobrem que a Economia Política tem muito mais a ver com tudo isso que está aí. Todos citam Hyman Minsky (leia post abaixo) e outros teóricos que, enquanto tudo parecia estar sólido, falavam ao vento. O descaso a esta bibliografia é tão grande que até hoje 31 anos depois de sua publicação, “Can ‘it’ happen again?” nunca foi traduzido no Brasil.

Por outro lado, os livros de e sobre Alan Greenspan foram abraçados pelas editoras brasileiras no mesmo ano de publicações originais nos Estados Unidos, como “A era da turbulência”, a autobiografia, e “Maestro”, de Bob Woodward, ambos da Campus, que, em contrapartida esteve atenta também para traduzir um dos livros que aparecem como “nova” bíblia: “A grande transformação” de Karl Polanyi. “Outro Karl!”, diziam alguns. “Moinho satânico?!”, reagiam aqueles que consideravam a retórica de Polanyi exagerada e até ingênua. Foi assim que o autor definiu o capitalismo e defendeu que há de ter “proteção contra os assaltos deste moinho satânico (pág.86).

Detalhe: o livro é de 1944. Agora, Polanyi é lembrado e recomendado por intelectuais, economistas e até antropólogos para aqueles que querem compreender a crise. No balanço, porém, salvo algumas editoras de perfil de esquerda, como a Boitempo (que publica François Chesnais), a Paulus, a Perspectiva, poucas souberam oferecer um catálago para este momento de crise. Os livros de teoria econômica contra o modelo neoliberal estiveram, em boa parte, renegados pelas editoras brasileiras.
Algumas foram ágeis e persistentes para traduzir Prêmios Nobel, como Amartya Sen e Joseph Stiglitz, como é o caso da Companhia das Letras.

A Record conseguiu um bom tento, quase sempre sobre consultoria de pessoas ligadas à esquerda (Chomsky e muitos outros). A Editora Unesp publicou Viviane Forrester. Mas autores menos famosos ficaram esquecidos. Não só nomes obrigatórios como Minsky. Mas alguns franceses, como Michel Aglietta, com apenas um livro pela Loyola.

Neste momento, com o moinho satânico está em pleno movimento, as editoras brasileiras poderiam aproveitar a oportunidade para oferecer novos títulos, cujos autores há muito revelam as mazelas do sistema financeiro e da participação do Estado e dos organismos internacionais nesta “corrente pra frente” tocada por Wall Street durante tanto tempo e nunca foram ouvidos com seriedade.



Escrito por jbsouto às 09h35
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O capitalismo não vai acabar. Ele só é assim mesmo.

Um dos pontos mais inovadores da teoria de Hyman Philip Minsky (1919-1996), o pós-keynesiano mais citado neste período de turbulência financeira mundial, foi sua “hipótese da instabilidade financeira”.

Entre tantas outras teses, muito propícias para o momento, como outro dia lembrou Martin Wolf, em seu artigo do Financial Times, Minsky agregou à macroeconomia a questão dos balanços das empresas e do crédito - e podemos estender hoje para os bancos.

Segundo ele, as empresas teriam estágios de financiamento e, dependendo do degrau alcançado, poderiam empurrar a economia para o desequilíbrio.

A teoria da “hipótese da instabilidade financeira” baseou-se no artigo de Keynes de 1937 (“A teoria geral do emprego”, não a grande Teoria Geral, que data de 1936), escrito para responder aos críticos do keynesianismo.

O texto de Minsky mostra que o capitalismo não acabará com as crises, mas é preciso ficar sempre atendo porque o futuro influencia o presente – o que pode ser interpretado como uma variante das expectativas keynesianas.

Enquanto todos os clássicos pensam que crises como esta não fazem parte do jogo e são anomalias do sistema, Minsky diz que isso tudo é endógeno ao capitalismo e será sempre assim. Segundo ele, ignorar a situação financeira das empresas – repete-se, vale também aos bancos - significa enxergar a economia como uma “feira de aldeia” e não com os “olhos das salas de reunião dos conselhos dos bancos de Wall Street”.

Da mesma forma que os bancos medem a capacidade de pagamento das empresas, logo, medem do próprio sistema. Ou seja, numa economia monetária com sofisticadas instituições não se pode acreditar que excesso de estabilidade, verificado nos últimos anos, com base em um endividamento ou alavancagem, não levará a um inevitável excesso de instabilidade.

Minsky defende que Keynes destacou tudo isso já em 1931, mas a literatura subseqüente à teoria keynesiana ignorou seu alerta, defendendo que a moeda não afeta o comportamento essencial da economia.

A teoria de Minsky está sendo agora citada e revisitada por analistas, então, é bom que todos leiam com atenção. Como vários autores alertam, e ele (Minsky) concorda, os "anos gloriosos" foram uma exceção. Quando Hobsbawn escreveu isso, deram pouca importância. Afinal, ele é marxista. Agora está aí outra crise.

No “mundo de papel” produzido pelo sistema financeiro, os débitos, as dívidas etc são as características essências desta economia capitalista baseada no “capital fictício” de Marx, ou melhor, no “capital portador de juros”, movido, como agora descobriu John Maccain, pela “insaciabilidade da finança”.

O resultado, voltando a Minsky, são chamadas sazonais do Banco Central e do Tesouro para debelar crises. Como disse Martin Wolf, Minsky estava certo. Pena que os governos e aqueles defensores do mercado nunca acreditaram na necessidade de uma regulamentação,que ele defendeu ardorosamente, e achavam que isso era coisa da heterodoxia econômica.

No entanto, como nas crises o Estado é o responsável, salvam-se todos, inclusive, aqueles que ganharam muito durante o tempo em que tudo parecia ir bem no futuro.




Escrito por jbsouto às 09h35
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O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.(Barão de Itararé)



Escrito por jbsouto às 13h26
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O MITO DO ELEITOR RACIONAL:POR QUE DEMOCRACIAS ESCOLHEM POLÍTICAS RUINS

Tomei conhecimento há duas semanas, através do blog do Prof. Greg Mankiw, da Harvard University, do lançamento do livro “The Myth of the Rational Voter: Why Democracies Choose Bad Policies” (O Mito do Eleitor Racional: Porque Democracias escolhem políticas ruins), da Princeton University Press, de 2007. O autor é Bryan Caplan, que é Professor Associado de Economia da George Mason University, nos EUA.

A tese do livro é polêmica, principalmente se transportada, sem a devida mediação, para outros contextos, já que o livro trata essencialmente da vida política dos EUA (e é bom colocar isso de antemão, para que alguns leitores deste blog não partam para a crítica ideológica sem atentar para as circunstâncias que levam um autor a escrever o que escreve!).

Segundo o Prof. Caplan o grande obstáculo para políticas econômicas sólidas não são os interesses de grupos entrincheirados, nem os crescentes lobbies, mas sim as falsas concepções populares, as crenças irracionais, e os viéses pessoais assumidos pelos eleitores comuns. O argumento do Prof. Bryan Caplan é que os eleitores continuamente elegem políticos que ou compartilham seus vieses, ou pretendem compartilhá-los, resultando assim em políticas públicas ruins que vencem novamente pelo voto popular.

Chamando a atenção para as suposições da política americana, Prof. Caplan afirma que a democracia falha precisamente por que ela faz aquilo que os leitores querem. Através de uma análise do comportamento dos eleitores americanos e opiniões num amplo leque de questões econômicas, ele defende a tese de que os não-economistas sofrem de quatro prevalecentes vieses: a) eles subestimam a sabedoria do mecanismo de mercado, b) desconfiam dos estrangeiros, c) desvalorizam os benefícios de conservar o trabalho, e d) acreditam, de forma pessimista, que a economia vai de mal a pior.

Ele apresenta várias maneiras de como governos democráticos funcionarem melhor, como por exemplo, urgindo que os educadores econômicos focalizem suas ações em corrigir falsas concepções, e recomenda que os governos democráticos façam menos e deixar os mercados assumirem.

As bases para a tese do Prof. Caplan são encontradas no conceito de “ignorância racional”. Segundo ele, existe o entendimento entre algumas pessoas que um voto tem uma probabilidade tão pequena de afetar o resultado de uma eleição que uma pessoa egoísta pode deixar de prestar atenção (“se dar ao luxo”, palavras nossas!) para as políticas (públicas). Ou seja, ela escolhe, no jargão econômico, ser “ignorante racional”. A ignorância eleitoral é um produto do egoísmo da natureza humana, e não uma aberração cultural. E isso pode ser considerado bastante normal em democracias, como a americana, em que o voto não é obrigatório (ao contrário do caso brasileiro, onde votar ainda é uma obrigação, e sujeita a várias sanções).

Deste modo, para o Prof. Caplan a presença na sociedade da ignorância racional de maneira ubíqua (em toda a parte) parece implicar, então, que a democracia funciona pobremente. Em suas palavras, “as pessoas que têm poder em última instância – os eleitores- estão fazendo cirurgia cerebral sem ter passado em anatomia básica”.

Para Prof. Caplan existem muitas tentativas de derrubar esta analogia, mas a mais profunda é que a democracia pode funcionar bem sob quase qualquer magnitude de ignorância racional. Como? Assuma que os eleitores não cometem erros sistemáticos. Apesar de eles (eleitores) errarem constantemente, seus erros são aleatórios. Se os eleitores enfrentam “cegamente” uma decisão entre X e Y, sem saber nada sobre X e Y, eles estarão igualmente escolhendo um ou outro.

Segundo o Prof. Caplan a chave para o entendimento destas questões é o que se convencionou chamar de o Milagre da Agregação. Um razoável número de economistas e cientistas políticos tem admitido a ignorância de eleitores individuais, mas eles ainda defendem a qualidade das decisões eleitorais. Por quê? Por causa do princípio da agregação. Eleitores individuais detêm pouca informação, logo seus votos são altamente aleatórios. Mas eleições são baseadas em opiniões agregadas de milhões de eleitores. Então, mesmo que haja um grande componente de aleatoriedade no voto individual, o princípio da agregação assegura, para todos os propósitos práticos, que os resultados ainda tenham sentido.

Uma outra maneira de entender este ponto é a seguinte: suponha que 90% de todos os eleitores são desinformados e votam aleatoriamente. Os 10% remanescentes são perfeitamente informados. Logo, em um contexto entre dois partidos, o princípio da agregação dá a cada político 45% dos votos, não importando o que eles sejam ou façam. Mas eles precisam de 50% dos votos para vencer. Nada do que eles possam fazer importa para os desinformados. Logo, quem os políticos devem cuidar? Dos eleitores informados. Neste exemplo qualquer candidato que ganhar o apoio da maioria dos eleitores informados também vence a eleição. Este resultado tem sido chamado do “milagre da agregação”. Parece ser milagroso porque implica que um eleitorado altamente desinformado pode – no nível agregado – agir “como se” ele fosse perfeitamente informado.

Para dar substância ao seu argumento, o Prof. Caplan apresenta alguns dados do grau de desinformação da vida política dos americanos. Segundo ele, metade dos americanos não sabe que cada um dos 50 estados dos EUA tem dois senadores, e ¾ não sabem a extensão dos seus mandatos. Mais da metade dos americanos não sabe nominar seus congressistas, e 40% não sabe nominar seus próprios senadores.

Ou seja, o Milagre da Agregação prova que a democracia pode funcionar mesmo com um eleitorado ignorante. Mas, argumenta o Prof. Caplan, há também uma outra categoria de evidência empírica que pode desacreditar o Milagre da Agregação. O Milagre só funciona se os eleitores não incorrem em erros sistemáticos. Isto sugere que ao invés de refazer todo o tópico do erro do eleitor, nós concentremos nosso fogo numa crítica e inexplorada questão: os erros dos eleitores são sistemáticos?

Para o Prof. Caplan há boas razões para suspeitar que sim. Ele ainda aprofunda sua questão: os erros dos eleitores são sistemáticos em questões de relevância política? Sua resposta é um enfático sim, e o livro apresenta evidência empírica robusta de que, pelo menos as crenças sobre o funcionamento da Economia são perfuradas por severos erros sistemáticos.

Enfim, um livro que está dando muito o quê falar, pelo menos entre os eleitores mais informados!

Por José Carlos Cavalcanti é Professor de Economia da UFPE, ex-secretário executivo de Tecnologia, Inovação e Ensino Superior de Pernambuco



Escrito por jbsouto às 13h25
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NÃO É O BANCO QUE QUEBRA, SÃO SEUS CLIENTES

Postado por Carlos Alberto Sardenberg em 30 de Setembro de 2008 às 09:41

A tese segundo a qual o “governo não deve colocar dinheiro para salvar banqueiros” – que circula hoje em todo o mundo – só faria algum sentido se fosse possível isolar os bancos do restante da sociedade e da economia. Não é possível.

Se o governo não coloca dinheiro para resgatar bancos e o sistema financeiro, o que acontece? Os bancos quebram.

O que significa quebrar um banco? Significa que seus ativos não cobrem seus passivos. Você deposita dinheiro em um banco, isso é passivo do banco. É o que o banco lhe deve. Na outra ponta, o banco pegou o seu dinheiro e emprestou para alguém comprar uma casa. Esse empréstimo é um ativo do banco, o que ele tem a receber.

Se o banco não recebe esse empréstimo, ou seja, não consegue realizar esse ativo – porque o mutuário se tornou inadimplente – qual a consequência óbvia? Não terá como devolver o dinheiro do depositante.

Multiplique por milhões de operações de depósitos e empréstimos. Multiplique isso pelos milhões de correntistas, depositantes e aplicadores no sistema financeiro, que são pessoas e empresas  – e terá uma idéia de quem são as vítimas de uma quebra de banco.

Isso é tão óbvio que é difícil entender como as pessoas não entendem e continuam a dizer que o governo não pode dar dinheiro aos banqueiros. Não é aos banqueiros, é ao sistema financeiro, aos bancos e seus clientes, correntistas, depositantes, aplicadores.

Ocorreram várias situações assim. A última nos EUA foi a quase quebra do Wachovia, um bancão de varejo, desses com milhares de agências e milhões de clientes. Quando terminou a sexta passada, o pessoal fez as contas e verificou que o banco não tinha dinheiro para abrir as portas na segunda. Simples assim: se você chegasse com um cheque para descontar, uma duplicata a receber, sacar a poupança, pegar o rendimento mensal de seu fundo de pensão – não haveria dinheiro.

Autoridades das agências econômicas organizaram então a venda do Wachovia para o Citi, com dinheiro público, com dinheiro dos contribuintes emprestado ao Citi.

Suponha que prevalecesse a tese de que não se pode salvar um banco. Os clientes chegariam na segunda e as portas das agências estariam fechadas. Leriam um aviso: quebramos, estamos em falência, contrate um advogado e entre na fila dos credores. Sorry.

Finalmente, essas intervenções não salvam os banqueiros, ou seja, os acionistas dos bancos. Essas ações viram pó, o banqueiro perde o banco.

Ás vezes, eu fico pensando: talvez, uma vez que fosse, numa crise dessas, se adotasse a tese de que não se deve salvar bancos. Haveria uma quebradeira, não de bancos apenas, mas de todos os seus clientes, que seria exemplar.

Mas seria um sacrifício enorme, uma perda de riqueza brutal, só para provar que tal tese é um equívoco brutal.



Escrito por jbsouto às 12h57
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ANALFABETO POLÍTICO

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, os preços do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo” (Bertold Brecht).

Escrito por jbsouto às 11h58
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FILAS, HOSPITAIS e [FALTA DE] INFORMAÇÕES

segundo uma crença muito bem estabelecida no poder central, o problema da saúde, no brasil, é a falta de recursos. tanto que criaram um imposto que deveria servir só pra investimentos e custeio da saúde [a extinta cpmf] e, apesar do aumento da arrecadação federal [em dezenas de bilhões de reais por ano…] mesmo sem cpmf, estão tentando criar a coisa de novo, com outro nome. ou seja, imposto pra saúde só se for cobrado pra saúde mesmo; se não for, é desviado pra outra coisa…

img127.jpg

mas veja a foto acima, tirada em um celular, em movimento, hoje, às 07:27h, de uma fila gigantesca [centenas de pessoas!] à entrada de um dos maiores hospitais da região metropolitana do recife. a fila, que compartilha um grande número de cidadãos entre um dia e outro, está lá todo dia, todo mês, todo ano. sexta passada, no rádio, uma senhora dizia [chorando] que havia saído de casa às quatro da manhã para acampar na entrada do hospital e que, "na vez dela", não havia mais fichas para atendimento. o que ela não sabia é que, desde a madrugada, pela simples análise de sua posição na fila, o hospital já sabia que "não haveria ficha".

até porque a foto e a fila não têm nada a ver com a capacidade do sistema de saúde. nenhum sistema, de saúde ou não, público ou privado, pode ser desenhado e construído para tratar picos de demanda como se eles fossem regime permanente. o custo seria insuportável para qualquer base de receita. como todo mundo que está na fila permanece lá por horas a fio, em pé, dificilmente será o caso de que todos estes potenciais pacientes sejam graves ou agudos. o problema, aí, é de gestão, pois confundiu-se, no mesmo lugar, o acesso à informação sobre o serviço [há vagas, hoje?] e o serviço propriamente dito.

o problema da fila, de fato, é de gestão de informação. hospitais têm capacidade de atendimento; tal capacidade deveria ser administrada por um sistema de gestão de informação capaz de reservar tempo [e, por conseguinte, espaço, por tipo de atendimento, em clínicas] que fosse capaz de distribuir, a priori e longe do hospital, senhas para quem quisesse ver o médico ou fazer um exame qualquer. isso pode ser feito com software e sistemas de informação que estão disponíveis hoje, em muitas cidades do brasil e em muitos serviços públicos.

ao invés de sair de sua periferia distante para o hospital e passar horas na fila, ao custo de duas passagens de ônibus, alimentação e, principalmente, tempo perdido para a pessoa e o sistema, o cidadão poderia ir numa lanhouse e, por menos de um real, reservar uma posição de atendimento. e isso no pior caso: um investimento em políticas públicas de inclusão digital [como também vem acontecendo em muitas cidades] faria com que as pessoas só tivessem que ir até o ponto público de acesso a internet mais próximo e entrar num sistema de reservas do serviço de saúde.

nada do que se diz acima é genial e muito menos original. está tudo ai, esperando para ser usado, para desafogar o sistema de saúde ou qualquer outro. mas é preciso pensar de forma diferente do que se faz hoje. é preciso pensar que toda empresa, sistema ou serviço [que funciona, hoje] é definido pelo software usado para torná-lo realidade. quer ver? a fila do hospital poderia se repetir nos aeroportos se as empresas aéreas não tivessem um sistema de reservas e check-in, com lista de espera. o colapso de transporte aéreo que sofremos, algum tempo atrás, derivou justamente da venda de muito mais passagens [reservas de vagas a bordo de aviões] do que a real capacidade de voar pessoas entre pontos x e y. e os aeroportos, por uns dias, ficaram iguais aos hospitais públicos…

no caso dos aeroportos, o caos se transformou em notícia diária, horária, de todas as rádios, TVs, jornais e da internet. a conjunção de clamor público e ação de órgãos reguladores, apoiadas por pressão de Estado, fez com que o caos aéreo fosse resolvido em alguns meses. pois nos hospitais o caos é diário. médicos e assistentes em permanente stress face ao monte de gente à porta, gente desesperada ao sol e chuva do lado de fora mas… infelizmente, sem meios de transformar seu caos particular em clamor coletivo, em ação dos reguladores, em pressão do e no Estado. nos hospitais, como nas empresas aéreas, a solução se encontra na gestão eficiente e eficaz de informação sobre o sistema.

a pergunta que deveríamos fazer é: se conseguimos resolver o problema nos aeroportos, porque não fazemos o mesmo nos hospitais? eu tenho um chute. podem até tentar me provar que não, mas acho que a resposta a esta pergunta tem uma relação muito forte com o poder aquisitivo dos participantes dos dois caos: nos aviões, voam ministros, governadores, deputados, senadores, prefeitos, empresários, jornalistas, médicos, engenheiros, advogados, delegados, juízes… as classes alta e média em geral e… uns muito poucos pobres, quando as passagens ficam muito baratas, muito raramente.

no caos dos hospitais, ao relento, os pobres e desassistidos. os sem voz. o brasil sem formação e sem informação, sem direitos, condenado a ficar, por uma vida a fio, na fila. por pura e simples incapacidade, de quem estar do lado de cá, de atacar o problema com ferramentas que existem e estão à disposiçao de todos.

Fonte: smeira.blog.terra.com.br



Escrito por jbsouto às 10h16
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INTERNACIONALIZAÇÃO DO QUE É NOSSO?

Não deve ser coincidência: ressurgem no mundo pressões orquestradas a favor de uma internacionalização dos nossos recursos naturais, na terra e no mar.

Petróleo: barril cravou novo recorde em Nova York, US$ 127, nesta segunda, 19 de maio. Na Bolsa de Valores de São Paulo, as ações da Petrobras subiram quase 4%, acumulando valorização de 110% nos últimos 12 meses.

E seu valor de mercado, no Brasil e no mundo, aproxima-se agora de US$ 300 bilhões, já maior que o da granítica Microsoft, da internet.

Faz sentido. Ela já é detentora, na Bacia de Campos, do terceiro maior campo de óleo e gás do mundo.

Resultado: o governo americano ensaia o relançamento da campanha diplomática de internacionalização da plataforma continental brasileira, de 200 milhas marítimas, que, agora se sabe, encharcada de petróleo.

Além de ressuscitar o movimento pela internacionalização da plataforma marítima, os Estados Unidos desengavetam a campanha pela internacionalização da Amazônia Brasileira.

Deu domingo no New York Times, sob o título de "De quem é a Amazônia, afinal?", o jornal mesmo responde: a Amazônia não pertence aos brasileiros. Pertence a todos nós, no mundo inteiro.

Bem, temos aí pelo menos dois pontos a ponderar. Primeiro: se a Amazônia é patrimônio da Humanidade, por que americanos e europeus nunca destinaram um único dólar aos programas brasileiros de preservação?

Segundo: se a troca de comando no Ministério do Meio Ambiente significa o princípio do fim do planeta Terra, é bom lembrar que o verdadeiro fim do mundo está no arsenal nuclear dos Estados Unidos, capaz de destruir 34 vezes a vida aqui na Terra.

Nesse tipo de diplomacia, bem que deveria haver um limite para tanta hipocrisia.

 

Fonte: Joelmirbeting.com.br




Escrito por jbsouto às 11h28
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O RECADO SERTANISTA

Um jornal americano (o The New York Times) e um inglês (o The Independent) reativaram nos últimos dias o pesadelo brasileiro com a soberania na Amazônia.

A pressão internacional é antiga. Com o passar dos anos, tem se tornado mais intensa. A acusação de que o Brasil não mostra capacidade para administrar aqueles 5 milhões de quilômetros quadrados – que significam 61% do território nacional – é biombo de interesses econômicos. Mas tudo é facilitado pelos governos que, sobre a questão amazônica, transitam da indiferença para a cumplicidade e vice-versa.

Agora que o assunto esquenta, é aconselhável repetir trechos da entrevista feita anos atrás, para a televisão, pela jornalista Paula Saldanha com Orlando Villas Bôas. Eis o ponto decisivo da conversa do sertanista falecido em 2002:

“Soube de fonte muito boa que 10 ou 15 ianomâmi estão na América aprendendo inglês (...) Essa gente volta liderando, falando inglês, com uma outra mentalidade. E o que eles vão fazer? Vão pedir um território ianomâmi desmembrado do Brasil e da Venezuela. E a ONU dará como tutora a América do Norte. Amor dos americanos pelos ianomâmi? Não, não senhor”.


Escrito por jbsouto às 09h53
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O FIM DA ERA NEOLIBERAL

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S.Paulo, 21.4.2008

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O fracasso das reformas neoliberais em em promover o crescimento, a guerra do Iraque, e agora a crise bancária americana marcam o declínio dos Estados Unidos como hegemon e o fim da onda idelógica neoliberal.

CHEGOU AO fim a onda ideológica neoliberal que dominou o mundo nos últimos 30 anos no quadro da hegemonia americana.
Dois fatos ocorridos nas últimas semanas marcaram esse fim inglório; de um lado, o socorro do banco de investimento Bear Stearns; de outro, as revoltas populares em vários dos 33 países hoje seriamente atingidos pelo aumento dos preços dos alimentos. Essa ideologia reacionária que visava reformar o capitalismo global para fazê-lo voltar aos tempos do capitalismo liberal do século 19 revelou ter fôlego curto. E não poderia ser de outra forma, já que estava em contradição com os avanços políticos e institucionais que transformaram o Estado liberal do século 19 no Estado democrático e social da segunda metade do século 20.
Apoiada na hegemonia americana, a onda ideológica neoliberal teve início em 1980, com a eleição de Ronald Reagan, e chegou ao auge nos anos 1990, com o colapso da União Soviética, mas nos anos 2000 entrou em declínio. Três fatores contribuíram para a crise: 1) o fracasso das reformas e da macroeconomia neoliberais em promover o desenvolvimento econômico dos países periféricos que a aceitaram; 2) o desastre político e humano representado pela guerra contra o Iraque; e 3), mais recentemente, a grande crise bancária que a desregulamentação financeira facilitou.
Nos últimos dias, a intervenção para salvar um banco de investimento e a ameaça de fome causada pela elevação dos preços dos alimentos marcam definitivamente o fim da utopia neoliberal de uma sociedade regulada principalmente pelo mercado. Não preciso de maior argumentação para demonstrar por que o socorro do Bear Stearns tem esse sentido. Conforme afirmou na ocasião Martin Wolf abrindo seu artigo semanal, "lembre a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado morreu". (Folha, 26/ 3/08). Engana-se, porém, Wolf em falar em "sonho". Trata-se antes de um pesadelo, porque, se é verdade que o mercado é um excelente alocador de recursos, mesmo nesse campo precisa de regulação para evitar instabilidade. Já em relação aos demais valores que a humanidade tão arduamente construiu, o mercado é cego, ignorando os princípios mais elementares de honestidade, proteção da natureza e justiça social.
Essa cegueira assumiu caráter dramático com a notícia de que as populações pobres de pelo menos 33 países estão ameaçadas de fome devido à alta dos preços dos elementos. Se a ideologia neoliberal dominante nestes últimos 30 anos não houvesse se encarregado de convencer os países pobres de que não precisavam de suas culturas de produtos alimentícios, de que era mais econômico especializar-se em alguma outra atividade (geralmente de valor adicionado per capita igualmente baixo) e importar seus alimentos básicos, os povos desses países não estariam agora em justa revolta.
Creio que existem boas razões para acreditarmos no desenvolvimento econômico e político dos povos. É absurda, porém, a ideologia que pretende alcançar o bem-estar econômico capitalista sem se beneficiar do desenvolvimento político democrático -sem contar com a ação corretiva e regulatória do Estado democrático e social que tão arduamente a sociedade moderna vem construindo e do qual faz parte um mercado livre mas regulado. Não teremos saudades do neoliberalismo.

 



Escrito por jbsouto às 17h12
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CONSELHEIRO GERAL DA NAÇÃO

Às vésperas de completar 80 anos, Antônio Delfim Netto continua trabalhando intensamente naquilo em que se especializou nos últimos 40: influenciar a política econômica nacional e, de quebra, alguns presidentes da República. Como ministro, trabalhou para três, todos da ditadura militar, ou do “regime autoritário”, como prefere dizer. A saber, Costa e Silva, Emílio Médici e João Figueiredo. Extra-oficialmente é difícil precisar quantos requisitaram seus conselhos. A lista é longa e inclui o atual ocupante do Palácio do Planalto. No começo de março, pouco antes de o governo lançar um minipacote para conter a valorização do real, Delfim esteve com Luiz Inácio Lula da Silva e um grupo de economistas. Ele disfarça. Diz que falaram do Corinthians.

De Lula, é só “inteligência privilegiada”, “salvador do capitalismo brasileiro”, “Darwin andando”. São alguns dos epítetos que lançou sobre o atual presidente. Já em relação ao antecessor, que conhece há meio século, Delfim exercita sua capacidade ofídica. “O tempo que (Fernando Henrique Cardoso) poderia ter aproveitado para fazer o desenvolvimento, ele aproveitou para se reeleger. E o que é pior: pra nada. Porque o segundo mandato foi mais lamentável que o primeiro.”

Paradoxos marcam a oitava década de vida de Delfim. O corpo em formato de pêra, as mãos bem cuidadas, o cabelo retinto, o bom humor e o estrabismo são os mesmos. Mas o ex-belzebu da esquerda é agora conselheiro de um presidente petista, dá longa entrevista para o blog do Zé Dirceu e chega a elogiar Karl Marx em artigos. Defende, com ênfase, os programas de transferência de renda do governo Lula e afirma que os direitos dos trabalhadores e a defesa do meio ambiente são definitivos. Por essas e outras, diz que o “viés de esquerda”, hoje em dia, virou sinal de trânsito.

Depois de não obter a reeleição para deputado federal, em 2006, poderia se esperar que Delfim, então com 78 anos, rumasse para a aposentadoria. Com um patrimônio declarado de R$ 2,1 milhões (principalmente em imóveis) e o direito a pensões obtido por passar décadas no serviço público, ele poderia confortavelmente se dedicar a ler mais livros de sua lendária biblioteca. Porém, a julgar pelo movimento de carros e pessoas no casarão que sua consultoria, a Idéias, ocupa no bairro do Pacaembu, o trabalho parece ter aumentado e não diminuído. Ao longo de um mês, Delfim profere pelo menos quatro palestras (a um preço apurado de R$ 10 mil cada), escreve uma porção de artigos, leciona algumas aulas e participa de várias reuniões com clientes e dos muitos conselhos para os quais foi nomeado ao longo da vida. Somam-se, ainda, as dezenas, se não centenas, de telefonemas. O economista está no topo da agenda de muitos colunistas, entre as chamadas “fontes jornalísticas” para os quais se deve ligar todo dia para trocar informações. Sim, trocar: quem dá mais recebe mais; quem não sabe nada, leva no máximo uma frase de efeito.

À revista PODER, Delfim falou por 52 minutos, no dia 18 de março, sobre o crescimento da economia brasileira e o impacto da crise nos Estados Unidos, sobre a eleição e os presidenciáveis para 2010, comparou governos e presidentes e até contou o que faz (e o que não) com seu dinheiro. Para facilitar a compreensão, a entrevista foi editada.

LULA
Ele tem uma inteligência absolutamente privilegiada. Eu acho que o Lula salvou o capitalismo brasileiro. Os economistas têm um vício terrível, de ignorar a distribuição de renda. O capitalismo é uma competição, uma guerra. O que você exige de mínimo para uma corrida ser honesta? Que todos tenham duas pernas. Construir um mecanismo que aumente a igualdade de oportunidades (programas de transferência de renda, como o Bolsa-Família) é fundamental para dar moralidade ao capitalismo. Se você não combinar esse sistema com o sufrágio universal, com a urna, termina muito mal.

O Lula conseguiu um fato elementar: aumentar a igualdade de oportunidades. É preciso que todos tenham a mesma oportunidade, senão vamos criar dois países. Isso não é garantia de resultado: é garantia de honestidade do ponto de partida. O homem é ele e suas circunstâncias, como dizia o nosso companheiro (Ortega y Gasset).

A idéia de que (os programas sociais) é assistencialismo é verdade. Só que é um assistencialismo que está montando uma porta de saída. É um assistencialismo que condiciona a educação, e agora, quando estende para as pessoas de 15 a 17 anos, está tentando colocar essa gente no mercado de trabalho. Há uma mudança de concepção. Essa é que é a contribuição do Lula. O Lula é um sobrevivente. O Lula é o Darwin andando. É um processo da seleção natural mesmo, e com uma vantagem: nunca leu Karl Marx.

Não adianta estar com ilusão: quando você entrega tudo para o economista, faz uma política economicista, sem levar em conta esses aspectos (as desigualdades), vem a urna e corrige. Nem (Hugo) Chávez, nem (Evo) Morales, nem (Rafael) Correa são acidentes. São tentativas de correções. O problema é que o sufrágio universal não garante correções na direção certa.

Quanto ao sucesso econômico, Lula foi muito honesto. A última frase dele é realmente sensacional: “Eu, mais uma mãozinha de Deus…”. E é nessa ordem mesmo.

FHC e a POLÍTICA ECONÔMICA
O país estava falido em 2002. Fernando Henrique entregou o país com a inflação rodando a 30% (ao ano), com as exportações crescendo a 4,5% (ao ano), com a dívida externa crescendo a 6,5% (ao ano), e US$ 17 bilhões de reservas. Tanto que para o Fernando iria ser “Lula, o Breve”: em seis meses ia ter inflação em 100%, ele ia ter de voltar ao Fundo Monetário, e o Fernando ia ser chamado de volta para salvar o Brasil. O que aconteceu de 2002 para 2003? Durante oito anos de Fernando, a exportação cresceu 4,5%, no primeiro ano Lula, cresceu 22%. Houve uma explosão no mundo, houve o aparecimento da China, da Índia… Essa é que é a “mãozinha de Deus”. E hoje você está em uma situação de bonança que é quase inacreditável. Você está com reservas de US$ 193 bilhões, está com as exportações crescendo de 17% a 18% (ao ano), felizmente as importações estão crescendo a 45%, de tal forma que esse superávit comercial vai diminuir mesmo. O que melhorou, na verdade, foi isso, o resto não mudou nada. Nem sequer a política cambial é melhor do que a anterior. Foram três coisas:

1) Primeiro, foi essa atitude de reconhecer que existe um negócio que nós temos de mudar; ainda que não vá poder dar, com a velocidade que se quer, a igualdade de oportunidades, as pessoas têm de ter a consciência de que está caminhando nessa direção, que é pra aceitar a política econômica. (No governo Fernando Henrique) não tinha sequer a concepção, era um negócio de atender pobre, pobre que o próprio governo estava construindo com uma política econômica devastadora;

2) Segundo, foi a “mãozinha de Deus”;

3) Terceiro, foi o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento); o PAC colocou outra vez na mesa o problema do desenvolvimento. Fazia praticamente 20 anos que ninguém falava em desenvolvimento; o PAC aumentou o investimento público. Não é apenas o governo federal: o Aécio (Neves) está fazendo a mesma coisa, o (José) Serra está fazendo a mesma coisa. As pessoas não estão entendendo que está havendo um aumento do investimento público em infra-estrutura, e o efeito multiplicador do investimento público é muito importante.

O Fernando gastou um tempo imenso na reeleição (para aprovar a emenda constitucional) e com métodos heterodoxos. O tempo que ele poderia ter aproveitado para fazer o desenvolvimento, ele aproveitou para se reeleger. E o que é pior: pra nada. Porque o segundo mandato foi mais lamentável que o primeiro. Ele fez algumas coisas que foram importantes. A contribuição, talvez, mais importante foi a ordem nas finanças estaduais – é claro que ninguém passa oito anos sem fazer alguma coisa, seria um escândalo maior do que foi.

2010 e o CRESCIMENTO DA ECONOMIA
Desde os anos 40 estudos empíricos mostram o seguinte: o fator mais importante na eleição é o fator econômico. O presidente (Lula) terá uma importância muito grande na eleição. Se ele vai eleger (o sucessor), não sei. Mas ele vai ter uma importância muito grande se o Brasil continuar crescendo 5% a 6% ao ano, como tudo indica que vai continuar. Quais são os dois fatores que podem abortar o crescimento? É a crise energética e a crise em contas correntes. Os dois fatores, na minha opinião, estão mais ou menos resolvidos. Mesmo com a crise americana, você tem US$ 193 bilhões de reservas, e isso permite quatro anos de besteiras, que é o tempo pra comer isso, ou permite quatro anos de uma política melhor do que a atual.

(Quanto à) crise energética, a mãozinha de Deus deu mais uma ajudada (voltou a chover), o que prova que a nacionalidade dele é correta. Em menos de 12 meses, ele provou três vezes a sua preferência: com (os campos de petróleo de) Tupi, Júpiter e água. Em 2009, eu acho que você não terá mais surpresas porque o governo levou um susto dos diabos. Você poderia ter um problema de gás, porque a Petrobras é a única empresa em estado quântico, ela pode vender a mesma molécula para dois sujeitos, garantindo que vai entregar (em referência ao gás combustível prometido aos taxistas). Mas hoje os tais navios de gás liquefeito estarão no Brasil antes do fim do ano, 2009 eu acho que está superado. Co-geração vai ter um papel importantíssimo, o governo acordou, está deixando o pessoal do bagaço (de cana) entrar direto na linha, você tem aí guardados 3 mil a 4 mil megawatts que podem ser utilizados.

OS PRESIDENCIÁVEIS
Você tem o Ciro (Gomes), você tem o Serra, você tem o Aécio, você tem a Dilma (Rousseff), você tem o Patrus Ananias.

Dilma é, na minha opinião, a mais eficiente ministra do governo. Ela mostrou que tem uma capacidade administrativa muito grande. E mostrou mais: se livrou do viés que teve no passado. Era um viés antiprivatista, e com uma certa razão. Há uma assimetria de informação, o sujeito que vai disputar uma concorrência sabe muito mais do que o governo sobre a concorrência, e o que é pior, ele não conta para o governo; e segundo, você não tinha mecanismos de proteger o consumidor. A concorrência dos sete trechos das estradas federais fez cair a ficha: existem mecanismos de leilão desenvolvidos pelos economistas que tornam possível reduzir essa assimetria de informação, obrigam o sujeito a contar o que ele sabe e ainda protegem o consumidor. Esta é a grande revolução do governo, é a grande mudança do governo Lula do segundo mandato. Está trazendo os investimentos privados. Não estão acontecendo na velocidade que a gente gostaria porque não há projeto.

O Patrus é o outro lado, do aumento da igualdade de oportunidades. O governo dispõe de dois vetores, mas muito menos visíveis que os dois vetores da oposição.

Aécio e Serra estão fazendo uma administração de muito boa qualidade, os dois estão procurando enfrentar os problemas. Mas São Paulo tem muito mais problemas. Esse problema do trânsito de São Paulo, por exemplo, é uma tragédia e vai desabar em cima do governo, queira ou não queira, não tem como fugir dele. O Serra está fazendo um bom governo. O Aécio está fazendo um bom governo. Agora, o PSDB é uma coisa insondável.

O Ciro corre por fora. O Ciro tem um recall. Tem algumas idéias com um certo charme, tem algumas outras com menos charme, mas eu acho que ele está posto. O Ciro não é um azarão, o Ciro é uma coisa estranha, de vez em quando ele tropeça nele mesmo. Se não tropeçar nele mesmo, a coisa do Ciro é muito mais séria do que parece. Ele tem uma mensagem que fala à sociedade.

A Dilma nunca foi submetida a uma eleição. O Jânio (Quadros) me dizia: “Delfim, ganha a eleição quem foi mais ouvido”. Pega o Mitterand: uma vez, duas vezes, três vezes, na quarta vez se elege. É por acumulação. O tal recall é uma somatória de recalls (de várias eleições). Aqui você tem dois que têm um recall enorme, o Serra e o Aécio estão colocados aí há oito, 12 anos. Foram submetidos a duas, três eleições. Essa acumulação persiste. Eu acho que eles têm essa vantagem. No governo, o Patrus tem um recall local, não tem um recall nacional. Ele leva certamente uma desvantagem nesse processo. Mas tem uma vantagem, que é o carro com o motor funcionando que poderá movê-lo.

O BRASIL NO MUNDO
Eu acho que o Brasil tem todas as condições de continuar crescendo entre 5% e 6% ao ano, porque os fatores que abortam o crescimento não vão aparecer. O Brasil poderá ter muitas surpresas, mas eu acho que o Lula está prevenindo a maior de todas as surpresas, que é a eventual queda dos preços dos produtos agrícolas e minerais que são exportados. Esse programa exportador industrial que está sendo montado pelo Miguel Jorge (ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) se destina a começar a construir de novo um setor exportador industrial enérgico.

A hipótese da OMC (Organização Mundial do Comércio) é a mais indecente de todas: “Para o Brasil, a agricultura e o minério, para a Índia, os serviços, e para a China, a indústria”. Banana pra eles! Nós vamos ter, daqui a 25 anos, de 240 a 250 milhões de habitantes, teremos de dar emprego para 140 milhões de brasileiros entre 15 e 65 anos, ninguém vai fazer isso com exportação agrícola e mineral. Nós somos vítimas de um complexo malthusiano. O progresso tecnológico nesses dois setores economiza mão-de-obra e economiza terra.

A hipótese da OMC (Organização Mundial do Comércio) é a mais indecente de todas: “Para o Brasil, a agricultura e o minério, para a Índia, os serviços, e para a China, a indústria”. Banana pra eles! Nós vamos ter, daqui a 25 anos, de 240 a 250 milhões de habitantes, teremos de dar emprego para 140 milhões de brasileiros entre 15 e 65 anos, ninguém vai fazer isso com exportação agrícola e mineral. Nós somos vítimas de um complexo malthusiano. O progresso tecnológico nesses dois setores economiza mão-de-obra e economiza terra.

DIREITOS ADQUIRIDOS
Hoje, duas coisas são conquistas: a defesa do meio ambiente pode até ser exagerada, mas é um negócio definitivo. Eu, quando era moleque nas ruas do Cambuci, matava passarinho e comia o passarinho. Hoje, qualquer criança, se você contar isso, tem de ir para um psiquiatra. E a segunda é que não tem mais jeito de você retirar direito dos trabalhadores. Você tem de permitir que eles negociem os seus direitos, sob a proteção da lei. O Brasil conseguiu isso com o velho jeitinho. Tudo no Brasil é negociável. Você vai para a Justiça do Trabalho e negocia tudo. É por isso que o Brasil tem um sistema muito mais flexível do que parece.

REAL X DÓLAR
Perguntaram para ele (Warren Buffett): “Como você ganhou US$ 100 milhões com o real?” E ele: “É que tem uns idiotas lá embaixo (no Brasil)”. Esse é um problema que vem desde o primeiro mandato do Fernando Henrique, que teve de fazer 22% de juro real durante quatro anos para manter o real valorizado. Qual a razão de pagar essa taxa de juros? “Ah, se não pagar esses juros os bancos brasileiros não financiam (a dívida pública)”. Vão aplicar onde? Vão ter de aplicar no setor privado a taxas ainda mais baixas. Tudo isso é uma das maiores mistificações em nome da ciência econômica já construídas.

APLICANDO DINHEIRO
Eu nunca comprei uma ação. Eu não tenho nenhuma atração por ações. Eu reconheço que, no longo prazo, a bolsa é a melhor aplicação. Você tem uns 100 anos de experiência bem registrada mostrando que a bolsa dá uns 3% real acima dos outros investimentos no longo prazo. Quem aplica em bolsa tem de estudar, tem de prestar atenção. Quem não tem tempo pra isso é melhor comprar um “fundinho” (cotas de fundo de investimento).

LEITURAS
Entender o mundo de hoje, pra mim, é procurar entender como ele funciona economicamente. Não creio que haja algum livro-chave hoje em dia para isso. Dos livros do passado, eu diria que está tudo em Adam Smith, desde que você leia os dois: Teoria dos Sentimentos Morais e A Riqueza das Nações. Está tudo lá. No Adam Smith o agente era um agente moral. Ele inventou um observador que era uma coisa interna do sujeito, ele tinha uma moralidade implícita, como se fosse um imperativo categórico. O observador invisível estava dentro de você. A nossa crise é produto da imoralidade de funcionamento do sistema. O sistema financeiro nasceu para servir a economia real, mas ele se apropriou da economia real. Qual é a única regra moral do sistema financeiro? O maior lucro possível, no menor tempo possível, para obter o maior bônus possível e correr para aplicar em papéis do Tesouro americano.

Fonte: Revista Poder



Escrito por jbsouto às 10h24
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O SILÊNCIO E A CALUNIA

28/03/2008 12:17:46

Mino Carta

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Pergunto aos leitores: em qual país democrático e civilizado a saída de um jornalista do peso de Paulo Henrique Amorim de um portal da importância do iG seria ignorada pelo resto da mídia? Na imprensa, a notícia só mereceu uma lacônica nota na Folha de S.Paulo, no vídeo o registro pela TV Senado de um discurso do senador Inácio Arruda, do PCdoB do Ceará, a lamentar o episódio e solidarizar-se com Amorim.

E o episódio não somente é muito grave, mas também altamente representativo da prepotência dos senhores, acobertados pelos seus sabujos midiáticos. O espetáculo da tartufaria não é surpreendente. Não cabe espanto, sequer um leve assomo de perplexidade. Tudo normal, na Terra brasilis, tão distante, tadinha, da contemporaneidade do mundo. Porque não há país democrático e civilizado onde o abrupto afastamento de um profissional tão honrado e competente quanto Amorim não teria repercussão na mídia, imediata e profunda.

Não faltaria a busca das razões que levaram o iG a agir de forma tão violenta, ao tirar Conversa Afiada do ar sem aviso prévio, ao lacrar o computador do jornalista e enxotar o pessoal da equipe da sede do portal. Bastaria este comportamento para justificar a repulsa da categoria em peso e a investigação dos interesses envolvidos, necessariamente graúdos.

Pelo contrário, ouviu-se clangoroso silêncio, quase a insinuar que, se a mídia não o noticia, o fato não aconteceu. Que diria Hannah Arendt ao verificar que no Brasil há cada vez menos “homens dispostos a dizer o que acontece e que acontece porque é”, de sorte a garantir “a sobrevivência humana”?

Pois o fato se deu, e não se exigem esforços mentais einsteinianos para entender que os donos do iG (Brasil Telecom, Fundos e Daniel Dantas) decidiram abandonar Amorim ao seu destino. Não é difícil também enxergar como pano de fundo o projeto de fundir Brasil Telecom com Oi, a ser executado com o apoio do BNDES, e portanto do governo federal, a configurar mais um clássico do capitalismo sem risco de marca tipicamente brasileira.

Ocorre-me comparar o mutismo atual diante de um fato tão chocante com a indignação midiática que, recentemente, submergiu a campanha de ações movidas em juízo por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra a jornalista Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, autora de reportagem sobre o êxito empresarial da Iurd. Não está claro até o momento se o Altíssimo acudiu o bispo Macedo e seus prosélitos, mas é certo que, se o fez, ou o fizer, terá de enfrentar a ira da mídia nativa.

Foi um coro de manifestações a favor da liberdade de expressão ameaçada, um rosário de editoriais candentes, de colunas vitriólicas, de comunicados de entidades representativas da categoria. A saber, Fenaj, ABI, ANJ, Abraji, sem contar a associação dos correspondentes estrangeiros (OPC). Ah, sim, a famosa liberdade de imprensa. A mídia verde-amarela não hesita em defendê-la, quando lhe convém. Permito-me concluir que, no caso de Paulo Henrique Amorim, não lhe convém.

Recordo episódio similar que me diz respeito. A minha saída de Veja em fevereiro de 1976. Vai às livrarias na segunda 31, lançado em Curitiba, um livro de memórias de Karlos Rischbieter, presidente da Caixa Econômica Federal no começo do governo do ditador de plantão Ernesto Geisel, depois transferido para a presidência do Banco do Brasil e enfim ministro da Fazenda de outro plantonista, João Batista Figueiredo. Ficou por um ano, saiu contestando as políticas que a ditadura pretendia levar adiante.

Escreve Rischbieter em um dos capítulos:

“No começo de 1975 deu entrada na Caixa um pedido de financiamento do Grupo Abril. O pedido era de um financiamento que equivalia a 50 milhões de dólares, para consolidação de várias dívidas, em grande parte em moeda estrangeira. O pedido foi analisado pelo pessoal competente, recebeu parecer positivo e foi aprovado pela diretoria. Mas faltava a aprovação do Governo. E Armando Falcão, ministro da Justiça e guardião dos “valores revolucionários” vetou o financiamento com o argumento de que a Veja, carro-chefe das publicações do grupo, e que tinha como diretor Mino Carta, era sistematicamente antigoverno. Em seu livro autobiográfico, O Castelo de Âmbar, Mino conta com detalhes o episódio que culminou com sua saída do Grupo Abril. Eu tentei, no meio da discussão, convencer o general Golbery a assumir o controle da situação e convencer o presidente a vetar o veto do ministro da Justiça. Mas foi em vão. O empréstimo só foi aprovado quando Mino Carta deixou a Veja no começo de 1976”.

In illo tempore colegas de profissão também silenciaram, com exceção do jornal do sindicato paulista. Em compensação, alguns insinuavam, quando não afirmavam, que eu prestava serviço ao chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, quem sabe em troca de vantagens financeiras. Tempos depois, em 1979, Figueiredo no poder, um célebre jornalista escreveu um texto na Folha de S.Paulo intitulado “De João a Mino, os donos do poder”. João Figueiredo, está claro. Apresentava-se ali a seguinte tese: “Lá na outra ponta do bonapartismo, em versão microscópica e virulenta, está o jornalista Mino Carta, mini-representante do mandonismo local, que apoderou-se da abertura política concebida e instrumentada pelo general Golbery do Couto e Silva, seu amigo e aparente protetor, para pontificar sobre o que é certo ou errado”.

Vinte anos depois, em 1999, outro jornalista de larga nomeada escreveu um livro para recuperar o tempo perdido e disse que eu fui demitido da Veja. Nada disso, esta é a versão do patrão. Eu me demiti, para não ter de levar as moedas da Editora Abril, e não seriam trinta dinheiros. Mas, desde a eleição de Lula em 2002, há quem sustente, periódica e inexoravelmente, que CartaCapital está a serviço do governo. Eis aí, inúmeros jornalistas nativos não conseguem imaginar um colega digno que não se porte igual a eles.


Escrito por jbsouto às 18h35
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BOLSA FAMÍLIA

Hillary quer implantar Bolsa Família nos EUA se eleita
Natuza Nery
Direto de Nova York (redação Terra)

Segundo lugar na corrida democrata para conquistar a indicação do partido nas eleições gerais dos Estados Unidos em novembro, a pré-candidata Hillary Clinton guarda em seu programa de governo uma boa notícia para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: apoiará o programa Bolsa Família caso seja eleita.

A menção ao programa, uma das principais bandeiras sociais do governo Lula, é encarada pela ex-primeira-dama como prioridade para diminuir a pobreza no continente. Em sua plataforma eleitoral para a América Latina, Hillary escreve, na primeira pessoa, sobre a necessidade de reconstruir as relações de seu país com as nações da região.

"Eu vou apoiar programas que dão às famílias poder para construírem seus próprios futuros, como o Bolsa Família do Brasil", afirma a senadora de Nova York. "Essas idéias de combate à pobreza podem ser colocadas em prática aqui, na nossa casa", acrescenta.

No documento oficial em que Hillary Clinton menciona o Brasil, há quatro prioridades prometidas pela pré-candidata à Casa Branca: estimular governos democráticos na América Latina; contribuir para reduzir a desigualdade social da região em 50% até 2015; combater mudanças climáticas e fazer a reforma da imigração nos EUA.

"Isso significa um reconhecimento da importância do Brasil e apoio à sua agenda social. O apoio dela ao Bolsa Família mostra que os programs sociais do governo são mais criticados no Brasil do que fora", afirma Cristina Pecequilo, doutora em Política Internacional pela USP e especialista em eleições nos EUA.

Se eleita, a senadora propõe criar o Fundo de Investimento Social e o Fundo de Desenvolvimento Econômico para as Américas, iniciativas defendidas por Lula desde seu primeiro mandato.




Escrito por jbsouto às 20h43
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